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Problemas gastrointestinais - Workshop Abbott

Participei a algumas semanas atrás de um workshop da Abbott, onde o Dr. Hugo Ribeiro, gastropediatra, professor da Universidade Federal da Bahia e também coordenador do centro de pesquisas de doenças nutricionais da infância dessa mesma universidade nos falou sobre a incidência de problemas gastrointestinais em crianças. 
Imagem daqui

A idéia geral era mostrar e debater como choros, cólicas, regurgitação, prisão de ventre, entre outros problemas gastrointestinais em bebês e em crianças de até dois anos podem transformar a vida das mães em um constante dilema, além de afetar diretamente a rotina do pequeno com restrições intermináveis.


Foi uma conversa informal, um bate papo muito interessante que acabou com diversas dúvidas que nós mães temos sobre esses assuntos. Isso porque transtornos gastrointestinais leves é a maior causa de consultas pediátricas no mundo todo! Quando foi dito isso fiquei mais tranquila, pois vi que muitas mães assim como eu se preocupa com isso.

Uma grande questão ressaltada pelo Dr. Hugo foi o limite entre o que é de doença e o que é fisiológico. 

Como disse em outro post, o bebê ao nascer não tem muitos dos seus órgãos maduros, isso inclui o sistema nervoso e o sistema digestivo, e devido a essa imaturidade 90% das crianças apresentam algum desconforto gastrointestinal, o que acaba sendo um dos maiores desafios das mães iniciantes, isso porque esse desconforto não significa que algo está errado, mas sim provocado por essa imaturidade.

E por esse motivo um dos grandes problemas dessa área é se tratar aquilo que não tem necessidade e acabar trazendo outros tipos de problemas para a família, não só de saúde, mas também financeiro com consultas desnecessárias e medicamentos sem sentido que não trazem muitos benefícios, por isso a informação correta é extremamente necessária. E devemos ter em mente que nós mães somos cúmplices no processo de descoberta pois o pediatra tem o conhecimento da medicina porém é a mãe que conhece a criança

Uma coisa muito importante que o Dr. Hugo destacou foi que o maior parâmetro de que as coisas nessa faixa etária estão bem é seu processo contínuo de crescimento, qualquer coisa que afete a saúde do bebê substancialmente refletirá nesse indicador, a criança não crescerá de forma adequada, ela não ganhará peso de forma adequada. Dificilmente algo que é importante na saúde dela não afetará esses parâmetros, ainda mais quando se trata de transtornos que afetem o trato digestivo, pois se o alimento fizer mal, ele não pode proporcionar um crescimento normal.

O grande problema da pediatria é que o paciente não fala, existe um interlocutor que fala por ele (a mãe), algumas vezes até 20 que falam por ele (pai, avó, tia, madrinha...), e o pediatra deve ter a sensibilidade de saber o que realmente se passa, se tudo aquilo que está sendo dito está mesmo acontecendo, ou se há um exagero na percepção das coisas por falta de apoio por exemplo (o que é o que acontece em muitos casos)..

O Dr. Hugo falou sobre vários transtornos, mas para não ficar muito extenso vou tentar resumir tudo que foi discutido.

A primeira coisa abordada foram as cólicas, tão temidas pelas mães e tão incômodas para nossos filhos.


A cólica nada mais é do que a imaturidade do trato digestivo e neural do bebê e se identifica pelo choro prolongado do bebê. E essa imaturidade não tem prazo para acabar, a média é de 3 meses, que coincide com todo processo de maturação neural, intestinal e o costume dele fora do útero. O pediatra precisa passar para a mãe que a cólica não é doença, precisa auxiliá-la nessa percepção para que essa mãe consiga ficar mais calma para lidar com isso.


Tirar alimentos da nutriz para diminuir as cólicas do bebê não deve ser a primeira opção como muitos pensam, primeiro deve-se investigar se o bebê que vem sendo amamentado de repente começa a apresentar esses sintomas ou se já o apresenta desde o começo. O perigo é ela cortar tanta coisa da alimentação que não consiga se nutrir para cuidar do filho e acabe não resolvendo o problema (ENFATIZO QUE A QUALIDADE DO LEITE NÃO MUDA, PRECISA ESTAR PASSANDO FOME POR MUITO TEMPO PARA QUE ESSE LEITE PERCA SEUS NUTRIENTES, o que acontece é a mãe ficar muito fraca para cuidar do bebê) e ela vai tirando e trocando que o problema pode passar pelo tempo que ele passaria mesmo e não que aquele alimento teria feito diferença. 
Uma coisa é certa, a cólica é cronológica, vai passar com o tempo de maturação do intestino do bebê.

O pediatra precisa verificar se está tudo bem com a criança, pois muitas vezes esse choro não é cólica. Precisa sim ver a dinâmica da casa, abaixar o tom de voz, dar mais apoio à mãe e isso já vai ajudar na diminuição do choro do bebê.

Outro problema discutido foi a regurgitação. Isso é transitório e fisiológico, é como se levasse o bebê no pediatra e a reclamação fosse que ele estivesse fazendo xixi na fralda, 90% das crianças apresentam regurgitação. Tem a ver sim com o volume mamado, então o melhor é fracionar mais a mamada para que a criança não pegue o seio com tanta fome e não engasgue e acabe mamando muito e regurgitando. Mamadas mais fracionadas a criança mama menos, engole menos ar também, (que é uma coisa que está relacionada ao aumento da regurgitação) e acaba não regurgitando tanto, mas aí o numero de mamadas aumenta (dá-lhe LD). 

Não há vantagem a criança ficar 5 horas sem mamar! As mães querem que os filhos durmam a noite toda, mas os bebês precisam de uma certa quantidade de leite, mas seu estômago é pequeno e por isso precisam acordar a noite, não adianta querer encher a criança pois ela não tem "tanque" pra aguentar a noite toda, mas isso passa!

Antigamente se achava que a criança regurgitadora ganhava muito peso, mas isso é mentira, essa regurgitação não repercute no peso (quando é fisiológico). Isso ocorre devido à falta de tônus no esfíncter do estômago, assim como a criança também não tem esse tônus no esfíncter anal nem no urinário, e na medida em que esse tônus aumenta (de acordo com o  tempo de desenvolvimento da criança, quandoo o aumenta a pressão abdominal,  a criança começa a se movimentar, começa a ganhar força, a sentar) ela regurgita menos.


Regurgitaçao e refluxo são sinominos, mas guarda-se regurgitacao ao fisiológico e denomina-se doença do refluxo quando é doença. O sintoma da doença é a azia (que não ocorre quando é fisiológico), e a criança apresenta aquele choro agudo por muito tempo, chora na deglutição, o ato de engolir incomoda devido ao esôfago machucado, ela vai ter dificuldade para dormir e se alimentar, pois tudo incomoda aquele estômago/esôfago machucado.  
E quando se faz um exame algumas vezes pode-se até encontrar ulcerações devido a essa volta do material ácido do estômago para o esôfago causando a esofagite. 

A preocupação nesse de caso (e para todos os outros tipos de alterações), deve surgir quando a criança não ganha peso adequadamente (o bebê pode chegar a urinar sangue devido a essas feridas, podendo até ter anemia por isso). Mas se a criança tem um ganho de peso adequado considera-se uma regurgitacao fisiologica.

A grande sacada do pediatra é analisar bem essa curva de crescimento e ganho de peso. Pois pode ser que uma criança esteja ganhando peso "normal" no padrão da curva, mas aquela criança é uma que deveria ficar sempre acima da curva, e ela estaria sendo "rebaixada" do normal dela para o normal da curva (o Davi por exemplo sempre esteve em 97% da curva) aí é perigoso. 
Ou então o oposto, a crianca está sempre "abaixo" da curva, mas aquele é o normal pra ela. 

Então muito mais importante do que dizer que aquele pontinho na curva está na normalidade é saber se aquele é o normal daquela criança individulamente, isso é o pediatra que deveria ver. Deve-se acompanhar a dinâmica do crescimento dela, e não só olhar um ponto isolado na curva, esta deve ser sempre ascendente. Para se identificar a doença deve-se traduzir o impacto na criança. 

Também falamos de constipação: não tem prazo determinado para a criança evacuar com LM, pode ficar até 30 dias sem evacuar. Temos que partir da mesma premissa de que se está tudo bem com a criança, se ela esta bem, não está com o abdômem distendido,, não parou de comer (porque se esta obstruída não come pelo desconforto), se a criança não faz força para evacuar e as fezes estão pastosas tudo está bem. 

A criança ainda não sabe coordenar a força na parede abdominal para evacuar (tem que fazer força no lugar certo pra sair, igual pasta de dente) e o que separa se está ocorrendo essa imaturidade ou se está mesmo constipado é a consistência das fezes, pois fazer cocô não deve ser sofrido. Agora, se as fezes estão duras, em forma de bolinhas e machuca ao sair aí sim tem-se um problema. 

A correlação entre prazo de evacuação e a obstipação é muito fraco. O aproveitamento do LM é muito grande, então a sobra é pouca mesmo. 

A manobra de apertar as perninhas do bebê contra o abdômem é válida para ajudá-lo a eliminar as fezes, para ensiná-lo onde deve fazer foça, mas isso só deve ser feito quando ele estiver fazendo, porque não adianta fazer isso quando o bebe está bem. O melhor momento de se fazer isso é depois de comer, por causa do reflexo gastro-colo (a eliminação ocorre simultaneamente com a alimentação, é um dos reflexos mais primitivos que temos), isso é para proteção, pois o alimento deve seguir em apenas uma direção. Então temos que condicionar o bebê a fazer força naquele local quando quiser evacuar.

Um último assunto a ser tratado foi o arroto pós mamada, quanto mais eficiente a mamada menor o volume de ar que o bebê engole e menos arroto tem, então a criança não precisa arrotar obrigatoriamente, e um volume pequeno de gás é absorvida pela parede intestinal. Então se o bebê dormir não precisa arrotar pois está confortavel para dormir.


E o Dr. Hugo terminou nos lembrando que a capacidade gástrica da criança é de 250ml ou 8 onças. Isso significa que não é grande essa capacidade, e por esse motivo a alimentação complementar deve ser densa, nada de "sopinha", papinha, nada de inha que conota coisas mais líquidas. O bebê já toma o leite materno ou mamadeira nos intervalos, então as refeições principais não devem ser substituidas por refeições líquidas, isso pode levar a perda de peso no bebê. A alimentação complementar deve ser densa caloricamente e diversificada pois a nossa nutrição depende disso.. 

E foi isso, foi uma palestra muito rica e esclarecedora e espero ter passado um pouco de tudo o que aprendi.

Espero que tenham sanado muitas dúvidas assim como eu. E se tiver sobrado alguma dúvida é só me perguntar que terei o maior prazer de (tentar) esclarecer.

Até a próxima.

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